A Construção da Mina Du Veloso: território, memória e inteligência africana materializada

 

A construção da Mina Du Veloso não pode ser compreendida apenas como a edificação de um espaço físico. Ela representa, sobretudo, a materialização de um processo profundo de ressignificação histórica, de localização social de sujeitos coletivos e de reafirmação da identidade ancestral africana em Ouro Preto. Trata-se de um projeto que articula salvaguarda do patrimônio material e imaterial afro-brasileiro, reconhecimento da ciência e da inteligência africana, educação antirracista e geração de renda por meio do turismo afrocentrado. Nesse sentido, a Mina Du Veloso constitui-se como um lugar de resistência, resiliência e reescrita da história negra na cidade.

Desde sua abertura, a Mina Du Veloso vem se destacando como um espaço de transformação cultural orientado por práticas e pensamentos contra-coloniais. A releitura histórica dos povos africanos escravizados no Brasil, especialmente em Ouro Preto, permite compreender o território a partir da valorização do trabalho realizado pelo povo negro, ontem e hoje. Essa perspectiva rompe com narrativas hegemônicas que invisibilizam a centralidade da mão de obra africana na construção econômica, social e cultural do país.

Essa valorização encontra respaldo nas Leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nos currículos escolares. Na Mina Du Veloso, esses marcos legais tornam-se prática viva, fundamentando um pensamento crítico que conecta a genialidade do trabalho africano na mineração aurífera com o trabalho contemporâneo de homens negros que reconstruíram e adaptaram o espaço para fins culturais e turísticos.

O trabalho, aqui, é compreendido como um elo atemporal, circular e espiralado, que conecta passado e presente. A construção da Mina Du Veloso estabelece uma relação afroafetiva entre aqueles que hoje edificam o espaço e seus ancestrais que atuaram na mineração do ouro. Essa conexão dialoga com o conceito de Milton Santos sobre o “conjunto de coisas”, no qual as relações identitárias e afetivas entre sujeitos e território se constroem a partir da produção material no espaço.

No contexto da Mina Du Veloso, a galeria subterrânea representa a inteligência africana materializada no território durante o período da mineração aurífera, enquanto o receptivo turístico expressa a continuidade desse legado por meio do trabalho contemporâneo. O vínculo afetivo dos trabalhadores com o espaço nasce da vivência cotidiana, da experiência compartilhada e do reconhecimento de si mesmos como herdeiros de saberes ancestrais.

Transformação do espaço: desafios, saberes e memória viva

A ideia de construir um espaço dedicado à valorização do conhecimento africano na mineração surgiu a partir de um projeto de extensão da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), voltado ao mapeamento de galerias subterrâneas utilizadas nos séculos XVIII e XIX. Ao observar o impacto econômico e social do turismo em algumas dessas galerias já abertas à visitação, tornou-se evidente o potencial de geração de renda e valorização cultural para as comunidades locais.

No bairro São Cristóvão (Veloso), onde existem diversas galerias semelhantes, iniciou-se a busca por um espaço viável para um projeto turístico que tivesse como eixo central o legado africano da mineração, a conscientização histórica, a reparação simbólica e a elevação da autoestima da população negra. A aquisição do imóvel em 2010 marcou o início de um longo processo de reflexão, enfrentamento de desafios estruturais e amadurecimento do projeto.

O deslizamento de terra que obstruiu a entrada da mina foi um dos momentos mais críticos, revelando tanto a fragilidade do espaço quanto a ausência de políticas públicas efetivas para a preservação desse patrimônio. A reconstrução, realizada com o apoio de trabalhadores locais, engenheiros e mestres de ofício, marcou o início da apropriação coletiva do espaço e da valorização do conhecimento técnico tradicional.

Nesse processo, cada trabalhador trouxe consigo saberes específicos, herdados de gerações anteriores. A valorização da inteligência africana manifestou-se na escolha de técnicas construtivas tradicionais, especialmente no uso da madeira e do barro, resgatando tecnologias da construção civil setecentista e oitocentista. O receptivo da Mina Du Veloso tornou-se, assim, um testemunho físico da continuidade desses saberes.

A construção da casa de madeira foi um grande desafio técnico e simbólico. Inspirada na grandiosidade da galeria subterrânea escavada pelos africanos escravizados, a edificação buscou dialogar com essa obra ancestral em termos de engenhosidade e resistência. Esse encontro entre passado e presente fortaleceu o reconhecimento dos construtores como herdeiros de uma tradição de ciência, técnica e criatividade negras.

Como afirma Frantz Fanon, romper com o complexo de inferioridade imposto pela colonialidade passa pelo reconhecimento e orgulho das origens. Na Mina Du Veloso, esse reconhecimento emerge da experiência direta com a obra ancestral, despertando emoções, celebrações coletivas e um profundo respeito pelo trabalho dos antepassados.

Comunidade, afeto e turismo afrocentrado

O canteiro de obras da Mina Du Veloso foi também um espaço de convivência, socialização e tomada de decisões coletivas. O fogão a lenha, descrito pelos trabalhadores como protagonista da obra, simboliza esse lugar de encontro, partilha e fortalecimento dos laços comunitários.

Diferente de modelos convencionais da construção civil, a obra esteve integrada à dinâmica do bairro São Cristóvão, envolvendo moradores, vizinhos e trabalhadores locais. Antes mesmo de sua inauguração, o espaço já era apropriado pela comunidade como lugar de convivência e lazer.

Desde sua abertura ao público, em 2014, a Mina Du Veloso consolidou-se como espaço de memória, aprendizado e geração de renda para moradores do bairro e regiões adjacentes. Hoje, é um dos atrativos turísticos mais visitados de Ouro Preto, destacando-se por estar fora do centro histórico colonial e por apresentar uma narrativa afrocentrada da história da mineração.

O reconhecimento institucional, materializado em prêmios como o Rodrigo Melo Franco de Andrade (IPHAN) e a Mostra Intermunicipal de Preservação Patrimonial, reforça a importância do trabalho desenvolvido no local. Mais do que um atrativo turístico, a Mina Du Veloso é um espaço de vozes múltiplas, onde passado e presente dialogam para construir futuros possíveis.

Como afirma Pyburn (2007), lugares de força e beleza são preservados quando permitem que muitas vozes falem para o futuro. A Mina Du Veloso é esse palco vivo, onde a inteligência africana ecoa, resiste e ensina, reafirmando a centralidade do patrimônio mineiro afro-brasileiro na história do Brasil.